A livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente



Já está passando da hora de recuperarmos Ivan Illich, que publicou, há quase quatro décadas – em uma época em que as pessoas não podiam captar plenamente o alcance de sua visão inovadora –, o célebre Deschooling Society (1971) (1).

Trata-se hoje de investir nos processos e programas educacionais extra-escolares – como o homeschooling, o communityschooling, o unschooling e o autodidatismo (2).

As razões são quase óbvias e já foram expostas na minha ‘Carta Rede Social 170’ (14/08/08) (3). Retomo aqui, de forma resumida.

Embora se declarem instituições laicas, as escolas são, no fundo, igrejas; ou seja, ordens hierárquicas (sacerdotais) que decidem o que as pessoas devem (saber) reproduzir. Graus de aprendizagem (na verdade, de ensino) são ordenações: medem a sua capacidade de replicar uma determinada ordem. Não é por acaso que a educação a distância encontrou fortíssima resistência na academia. Pelos mesmos motivos, os citados processos e programas educacionais extra-escolares são duramente combatidos pelas corporações de professores, que argumentam – sem se darem conta de que, com isso, estão apenas revelando seu caráter sacerdotal – que não se pode deixar a educação nas mãos de leigos…

Todo aprendizado depende da capacidade de estabelecer conexões e reconhecer padrões. Nos dias de hoje, uma criança com acesso à Internet em casa e noções rudimentares de um ou dois idiomas falados por grandes contingentes populacionais (como o inglês ou o espanhol, por exemplo), já é capaz de aprender muito mais – e com mais velocidade – do que um jovem com o dobro da sua idade que, há dez anos, estivesse matriculado em uma instituição de ensino altamente conceituada. Se souber ler (e interpretar o que leu), escrever, aplicar conhecimentos básicos de matemática na solução de problemas cotidianos e… banda larga, qualquer um vai sozinho. Ora, isso é terrível para os que querem adestrar as pessoas com o propósito de fazê-las executar certos papéis predeterminados. Isso é um horror para os que querem formar o caráter dos outros e inculcar seus valores nos filhos alheios.

A educação em uma sociedade-rede

Em uma sociedade-rede, a educação é uma conseqüência dos meios interativos disponíveis na rede. São esses meios que conformam ambientes sociais (clusters) capazes de ensejar aquele tipo de interação caracterizada como educativa. Ou seja: a escola é a rede!

Dominar a leitura e a escrita, saber calcular e resolver problemas, ter condições de compreender e atuar em seu entorno social, ter habilidade para analisar fatos e situações e ter capacidade de acessar informações e de trabalhar em grupo, são geralmente apresentados como objetivos do processo educacional básico. No entanto, para além, muito além, disso, os novos ambientes educativos em uma sociedade-rede tendem a valorizar outras competências ou habilidades, como a de identificar homologias entre configurações recorrentes de interação que caracterizam clusters (e, conseqüentemente, reconhecer potenciais sinergias e aproveitar oportunidades de simbiose), saber não apenas acessar, mas produzir e disseminar informações e conseguir não apenas trabalhar em grupo, mas fazer amigos e viver e atuar em comunidade.

Sociedades em que as redes são as escolas serão sociedades desescolarizadas, como queria o visionário Ivan Illich.

De certo modo, tudo o que parece realmente necessário para a convivência ou a vida em rede, como a educação para a democracia, a educação para o empreendedorismo e para o desenvolvimento ou a sustentabilidade, não comparece nos currículos das escolas. Não pode ser por acaso. Isso talvez corrobore a constatação de que a escola é uma das instituições que mais resistem ao surgimento da sociedade-rede.

Sobre o homeschooling, o communityschooling e o unschooling, o leitor pode encontrar mais detalhes na nota (2).

Vou falar agora da necessidade de investir em uma velha-nova modalidade educativa: o autodidatismo. Velha porque foi assim que tudo começou. Nova porque, nos dias que correm, uma criança, uma pessoa adulta ou idosa navegando, lendo e publicando na Web é, fundamentalmente, um autodidata.

Não adianta torcer o nariz. Na sociedade que está vindo, todos serão autodidatas, por mais que queiramos condicionar a empregabilidade à formação escolar e acadêmica.

A escola como meio de exclusão

Como escrevi recentemente, em Escola de Redes: Novas Visões (2008), na sociedade-rede “você é importante na medida de sua capacidade de exercer uma dessas três funções [hub, inovador ou netweaver] e não de seu exibicionismo, de sua desenvoltura em usar os semelhantes como instrumentos para sua projeção ou de sua auto-reclusão estudada, baseada em uma opinião muito favorável sobre si mesmo ou baseada em seu currículo” (4).

Colecionadores de diplomas e títulos acadêmicos não terão muitas vantagens em uma sociedade inteligente. Suas vantagens provêem da idéia de que a sociedade é burra (e eles, portanto – que compõem a burocracia sacerdotal do conhecimento – são os inteligentes). Para se destacar dos demais – quando o desejável seria que se aproximassem dos semelhantes – os sábios precisam que a sociedade continue burra.

Estamos vivendo há séculos sob o controle de uma burocracia sacerdotal do conhecimento. Permita-se-me uma outra auto-citação, ainda do Escola de Redes: Novas Visões. “Você fez um estudo interessante sobre determinado assunto, mas a burocracia sacerdotal do conhecimento acadêmico não lhe dá crédito; você tenta ler (ou escrever) alguma coisa inédita, mas não consegue entender (ou ser entendido) por razões estranhas à racionalidade formal (lógica e metodológica) ou substantiva (semântica incluída) do texto: certamente está havendo algum tipo de intervenção hierárquica, que seleciona alguns caminhos na rede em detrimento de outros. Algum programa particularizou uma região da rede instaurando códigos de reconhecimento e permissões. Se você não possui as credenciais (um título, por exemplo, com o qual os mesmos de sempre se condecoram mutuamente em um circuito fechado de quem leu as mesmas coisas, participou das mesmas conversas, quer dizer, compartilhou voltas em torno do mesmo assunto ou da mesma maneira de abordá-lo), seu acesso é proibido. Para esse tribunal epistemológico — que se arroga o direito de dizer o que é e o que não é válido em termos de pensamento — todos são culpados de heresia em princípio. Você tem que ser absolvido por ele, de antemão, para ser aceito” (4).

É assim que a escola, nos últimos séculos, não foi um meio de inclusão, mas de exclusão. Nesse tipo de platonismo (como todo platonismo, autocrático), o “doutor” (o sábio) era um representante do mundo dos incluídos, que se destacava do mundo dos excluídos (os ignorantes). Até hoje, no Brasil, se for pego cometendo um crime, quem tem curso superior merece prisão especial: seu diploma lhe confere o direito de não ficar na mesma cela que os sem-diploma (os ignorantes). Sim, o seu suposto conhecimento atestado por títulos lhe dá uma condição superior e é a própria lei que lhe reconhece o direito de se destacar dos semelhantes. Barbaridade!

É claro que hoje as coisas devem – e já podem – ser colocadas de outra maneira, envolvendo redes ou comunidades de aprendizagem, sobretudo no que se refere à educação em casa (homeschooling) e à educação comunitária (communityschooling), esta última em um sentido mais abrangente do que o da comunidade sócio-territorial, envolvendo clusters de aprendizagem (ou seja, comunidades como redes com alto grau de distribuição e conectividade). Fala-se até, por analogia com os APL (arranjos produtivos locais), de “AEL” (Arranjos Educativos Locais), mas o sentido de local aqui deve ser estendido para abarcar, além de comunidades territoriais, todos os tipos de redes identitárias.

A sociedade-escola

A sociedade sem escola de Illich deveria ser, assim, renomeada como a sociedade-escola, desde que fique claro que se trata da sociedade-rede; ou seja, estamos falando da cidade educadora, ou, mais precisamente ainda, das comunidades educadoras que se formam na sociedade-rede.

Nesse sentido, não são os aparatos educativos hierárquicos, enquistadas dentro da sociedade, que educam basicamente: na medida em que a sociedade de massa vai dando lugar à sociedade em rede, é a própria sociedade (local, no sentido ampliado) que educa, por meio das comunidades (clusters) que necessariamente se formam em seu seio.

Comunidades educadoras são, antes de qualquer coisa, comunidades de aprendizagem, quer dizer, comunidades-que-aprendem. E a pessoa, como continuum de experiências pessoais intransferíveis e, ao mesmo tempo, como série de relacionamentos, aprende por estar imersa (conectada) em um ambiente educativo (5).

O fundamental é aprender a aprender

A educação básica não deveria ser baseada na transferência de conteúdos temáticos secundários e sim na disponibilização de ferramentas de auto-aprendizagem e de comum-aprendizagem. Para reprogramar a educação básica deveríamos começar perguntando o que é necessário para que um indivíduo e uma comunidade possam fazer o seu próprio roteiro de aprendizagem. Do ponto de vista do autodidatismo, temos então uma resposta em 10 pontos:

1 – Reconhecer padrões

2 – Estabelecer conexões

3 – Ler na sua língua natal

4 – Interpretar o que leu

5 – Escrever na sua língua natal

6 – Fazer contas (as operações matemáticas básicas)

7 – Aplicar os conhecimentos básicos de matemática na sua vida cotidiana

8 – Ler em outra língua (da globalização, quer dizer, falada por um grande contingente populacional espalhado por vários países e mais de um continente)

9 – Argumentar (rudimentos de lógica)

10 – Navegar e publicar na Internet

Esses são os requisitos e as ferramentas contemporâneas da inclusão educacional. Quem dispõe deles pode caminhar sozinho; ou seja, de posse de tais instrumentos, cada um, em função de suas opções pessoais, pode traçar seus próprios itinerários de formação e compartilhá-los com suas redes de aprendizagem. Esses são os requisitos para o autodidatismo.

A chamada pré-escola (ou melhor, a educação da primeira infância) deveria se concentrar nos dois primeiros itens (além da fala, é claro). E o passo seguinte deveria ser – quer por meio da escola básica, quer por meio da educação extra-escolar: na educação em casa (homeschooling) e na educação comunitária (communityschooling) – promover o aprendizado dos oito itens restantes. Mas mesmo que a escola básica se dedicasse precipuamente a isso, mesmo assim não se poderia abrir mão da educação em casa (a primeira rede na qual o ser humano se conecta), nem da educação comunitária (a primeira expansão dessa rede, envolvendo os vizinhos, os amigos e conhecidos mais próximos).

Educação para a democracia e para o desenvolvimento

Para além da escola, essas duas redes serão também indispensáveis na próxima etapa curricular, na qual devem comparecer os primeiros conteúdos temáticos substantivos. Não, não se trata de nada (ou quase nada) do que atualmente compõe os currículos escolares. Trata-se, por incrível que possa parecer, da educação para a sustentabilidade, quer dizer, para a vida (em um sentido ampliado, envolvendo os ecossistemas, inclusive o ecossistema planetário) e para convivência social. Isso compreende duas “disciplinas” (se for possível falar desse modo) interligadas: a educação para a democracia e a educação para o desenvolvimento.

A educação para a democracia (em um sentido deweyano do termo) compreende a educação para vida comunitária, para os modos cooperativos de resolução de conflitos e para as formas de relacionamento que ensejam a regulação social emergente (as redes).

A educação para o desenvolvimento (humano, social e sustentável) deve compreender, por sua vez, o empreendedorismo (e a chamada pedagogia empreendedora) e o desenvolvimento local (ou comunitário).

Todo o restante é suplementar. Pasmem! Mas é isso mesmo. Saúde (incluindo educação física, alimentação e nutrição), artes e literatura, ofícios, história, ciências, filosofia e espiritualidade – são conteúdos importantes, mas não são educação básica em um sentido sistêmico, de acesso a ambientes favoráveis a aprendizagem. Isso não quer dizer que as pessoas não devam aprender essas coisas. Cada um deve aprender o que quiser, o que for necessário para o desenvolvimento de suas potencialidades e para a execução dos papéis sociais que optou por desempenhar. Mas à educação societária (ou comunitária) – à educação como domínio público – cabe se concentrar naqueles dez requisitos para a auto-aprendizagem e naquelas duas dimensões temáticas da educação para a sustentabilidade (democracia e desenvolvimento) que têm a ver com os padrões de vida e de convivência social.

A educação para a livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente

A educação para o autodidatismo deve se preocupar basicamente com isso, com a educação como domínio público. Essa é a “formação básica” do autodidata – que constituirá o ser humano inteligente em uma sociedade inteligente do futuro – que deveria ser priorizada pela rede familiar, pelas redes comunitárias e pelas hierarquias escolares básicas (a escola fundamental nos seus primeiros anos).

E depois? Bem, depois serão os autodidatas que – eles próprios tendo condições de caminhar com suas próprias pernas, desde que aprenderam a aprender – vão dizer o que querem aprender e o que não querem. Em uma sociedade livre, não podemos ficar enfiando conteúdos na cabeça dos outros para cumprir os papéis que desejamos que eles cumpram. Sobretudo não deveríamos, com base na falta de possibilidade (em geral econômica e social) da maioria da população, de fazer escolhas em um leque mais amplo de alternativas, ficar ensinando corte-e-costura para as meninas e carpintaria ou mecânica para os meninos. Isso pode interessar aos donos da fábrica de confecções, de móveis ou da fábrica metalúrgica e da montadora de automóveis, que querem que os filhos alheios aprendam tais ofícios, mas raramente se dispõe a matricular seus próprios filhos nessas escolas técnicas, reservando-lhes um lugar em alguma carreira acadêmica, “superior”, na qual eles vão aprender a mandar nos outros ou a ter melhores condições de auferir altos salários, lucros e outros benefícios. Como se pode ver, aqui não estamos mais no terreno da educação como domínio público, ainda que muitas das escolas (estatais) que se dedicam ao adestramento da força de trabalho sejam (ditas) públicas.

Alguns retrucam que esse tipo de educação para o autodidatismo não pode ter avaliação da aprendizagem, mas isso é falso. A avaliação passa a ser feita em coletivos mais amplos, passa a ser uma avaliação da sociedade – uma avaliação pública stricto sensu – e não a avaliação privada de uma confraria sacerdotal. Em vez das notas e dos títulos conferidos por uma corporação de professores, por uma banca acadêmica, os autodidatas serão avaliados pelo que produzem. É a árvore avaliada por seus frutos e não pelos certificados que recebeu da organização dos botânicos.

Isso já acontece com os escritores. Escritor é quem escreve e quem é reconhecido pelos leitores (que lêem seus livros e os recomendam) e não quem recebe autorização para escrever de uma corporação qualquer de escribas ou um conjunto de opiniões favoráveis dos críticos literários. Somente em regimes autocráticos as pessoas têm que ter autorização para publicar o que escrevem. Mas mesmo em regimes formalmente democráticos existem quistos autocráticos (como corporações profissionais ou acadêmicas) querendo impor proibições para tal exercício (como ocorre hoje, por exemplo, com a obrigatoriedade do diploma de curso superior de jornalismo para exercer a função jornalística).

As academias científicas também impõem restrições autocráticas. As revistas científicas reconhecidas são dirigidas por conselhos editoriais – que se constituem, como vimos, como verdadeiros tribunais epistemológicos (e, no caso das áreas humanas e sociais, freqüentemente também como alfândegas ideológicas) – aos quais cabe dizer o que um estudioso pode ou não pode publicar (a começar pela exigência de diplomas do autor como condição prévia para aceitar sequer receber e examinar o seu paper). Muitas vezes um jovem estudante de astrofísica fica meses esperando um parecer favorável à publicação de um artigo em que relata as importantes descobertas que fez.

Tudo isso faz parte da organização sacerdotal do conhecimento (etimologicamente, uma hierarquia), que não é mais compatível com a sociedade em rede que está emergindo.

Mas na sociedade-rede que está emergindo, nosso astrofísico já encontrou uma saída: agora ele publica suas descobertas imediatamente em seu próprio blog, sem pedir autorização a ninguém. Outros astrofísicos, que também têm seus blogs, lêem o que ele escreveu e interagem com ele. O único resultado é que enquanto o tribunal espistemológico dos pós-PHDs em astrofísica estão pensando se aceitam ou não aceitam seu artigo, a ciência avançou pela polinização mútua das idéias e dez novos artigos sobre o mesmo tema apareceram sucessivamente. Formou-se uma rede. E a rede avaliou a aprendizagem daquele jovem astrofísico por meio de um processo criativo, gerando mais aprendizagem coletiva.

Se não houver retrocesso no processo de emergência da sociedade-rede, tudo será assim. As notas, os certificados, os diplomas e os títulos continuarão existindo, mas as pessoas que realmente importam – quer dizer, que se conectam para aprender e produzir juntas – darão cada vez menos bola para essas autorizações hierárquicas.

Por outro lado, autodidatas são pessoas capazes de aprender também a se auto-avaliar. E a compartilhar sua avaliação em grupos de estudo.

Voltar a ler: o caminho do audidata

O velho alquimista Altus (1677) que desenhou o Mutus Liber (um belíssimo livro de gravuras), escreveu em toda obra apenas uma frase, na sua décima-quarta prancha: “Ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies”. Chamo a atenção para a insistência de uma parte do lema alquímico: lê, lê, lê, relê... Ao alquimista, como autodidata, cabia encontrar o caminho (ou construir seu próprio caminho) por meio da leitura.

Para quem já adquiriu a condição de autodidata, muita coisa pode ser feita por meio de programas alternativos de leitura – individual ou em grupo.

Para quem já adquiriu tal condição – ou seja, para quem já aprendeu a aprender – é sempre melhor fazer um esforço autodidático para ler as obras fundamentais de qualquer assunto do que se matricular em um curso superior e ficar assistindo aulas de professores que reproduzem as modas da época, indicam bibliografias (em geral fotocópias de partes de textos clássicos, resenhas e análises que interessam mais aos trabalhos acadêmicos que eles estão fazendo no momento do que ao aluno) e que, via de regra, não leram, eles próprios, a maioria dos textos básicos sobre a matéria que ensinam.

Sim, sobre qualquer assunto é necessário ler pelo menos uma parte dos textos básicos: alguns clássicos, com certeza, mas também alguma coisa contemporânea. A lista completa pode chegar, dependendo do tema, a centenas de títulos. Digerir tudo é meio impraticável, sobretudo se considerarmos que não basta ler os textos. O estudante deve procurar se informar sobre o autor e sobre as circunstâncias em que produziu sua obra. Deve ler um ou dois artigos de especialistas contextualizando a obra. E não pode trocar a leitura dos textos (fontes) pela leitura do que disseram sobre esses textos. Ao contrário do que se pratica nas academias, é preciso que o estudante vá primeiro beber direto na fonte para depois fazer o que quiser (ou puder).

Aulas não servem para muita coisa. Se houver um grupo de meia dúzia a uma dúzia de estudantes interessados e esse grupo puder organizar seminários regulares sobre cada um dos textos, será o ideal. Leitura individual e conversações. E pronto. Ou quase.

Por último, é bom que o estudante escreva um pequeno comentário (curto como um artigo de jornal, pois a capacidade de produzir uma síntese é um dos indicadores de compreensão) sobre o texto que leu. Não é para resumir, resenhar, “fichar” ou copiar (ou repetir com outras palavras) o que disseram o autor ou seus comentadores e críticos. É para descobrir coisas novas, formar uma opinião própria que tente acrescentar alguma coisa ao que já foi dito. Se adotássemos tal exigência nas nossas universidades, o índice de reprovação seria multiplicado por 10 (ou, quem sabe, por 20). Aliás, na pós-graduação, bastaria proibir as citações (obrigando o estudante a dizer o que ele realmente pensa sobre o assunto) para eliminar 90% das teses de mestrado e doutorado, em especial nas áreas de “humanas”.

A rigor nenhum conhecimento pode ser transferido. O conhecimento é sempre criado e recriado ou reconstruído; de certo modo, inventado. Quem não inventa nada, não aprende nada.

A “prova” final de um curso autodidático é escrever alguma coisa original, inventada. Inventada, sim: não acredite nos que vão dizer que isso tem que ser “assim” ou não pode ser “assado”. Produza, publique sem pedir autorização a ninguém e depois arque com as conseqüências expondo-se a crítica.

A árvore se conhece pelos frutos. Não é necessário um fiscal para dizer se o fruto é bom ou ruim segundo suas concepções e seus gostos. Se as pessoas puderem chegar até a árvore, colher os frutos e experimentá-los, saberão se vale a pena comê-los até o fim. Ponto.

O fim dos colecionadores de diplomas

Já há bastante gente pensando assim. Headhunters inteligentes se impressionam muito pouco com a coleção de diplomas apresentados por um candidato a ocupar uma vaga em uma instituição qualquer.Querem saber o que a pessoa está fazendo. Querem saber o que ela pode ser a partir do que pretende (do seu projeto de futuro) e não o que ela é como continuidade do que foi (da repetição do seu passado). Está certo: como se diz, o passado “já era”. O novo posto pretendido não será ocupado no passado e sim no futuro. Então o que é necessário avaliar é a linha de atuação ou de pensamento que está sendo seguida pelo candidato.

Em breve, as avaliações de aprendizagem serão feitas diretamente pelos interessados em se associar ou em contratar (latu sensu) uma pessoa. Redes de especialistas de uma área ou setor continuarão avaliando os especialistas da sua área ou setor. Mas essa avaliação será cada vez horizontal. E, além disso, pessoas avaliarão outras pessoas a partir do exame das suas expressões de vida e conhecimento, pois que tudo isso estará disponível, será de domínio público e não ficará mais guardado por uma corporação que tem autorização para acessar e licença oficial para interpretar tais dados.

Cada pessoa terá a sua própria wikipedia. Ao invés de aceitar apenas as oblíquas interpretações doutas, passaremos a verificar diretamente a wikipedia de cada um, aquilo que David de Ugarte (2007) chamou de contextopédia: o arquivo-vivo que contém as definições dos termos habituais, os pontos de vista, as referências, os trabalhos e as conclusões sobre os assuntos da sua esfera de conhecimento e de atuação (6). Quem gostar do que viu, que contrate ou se associe ao autor daquela contextopédia. Ponto final.


Notas e referências

(1) ILLICH, Ivan (1971). Deschooling society. New York: Marion Boyars, 1971. O original está disponível on line neste link. Existe tradução brasileira: Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1985. A íntegra já está disponível neste link.

(2) Sobre o homeschooling, saiba mais clicando neste link. Sobre o communityschooling, saiba mais lendo o artigo de Erwin Flaxman (disponível em inglês apenas): “The promise of urban community schooling” em The Eric Review vol. 8, Winter 2001. Sobre o unschooling, consulte o site: http://www.unschooling.com/index.shtml

(3) Para ler clique aqui.

(4) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas Visões sobre a sociedade, o desenvolvimento, a Internet, a política e o mundo glocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.

(5) Como articulador do Comitê Científico do X Congresso Internacional de Cidades Educadoras (São Paulo, 24 a 26 de abril de 2008), propus um conjunto de 27 questões provocativa para o debate dos participantes, cujo sentido geral era explicitar duas dimensões ainda não suficientemente exploradas ao longo de quase duas décadas de experiências desse interessante movimento surgido em 1990 em Barcelona: a) as relações entre cidade educadora e democracia (democracia entendida aqui quer como regime político formal, quer como experiência de convivência social, na base da sociedade e no cotidiano do cidadão); e b) as relações entre cidade educadora e os processos individuais e coletivos de aprendizagem potencializados pela emergência das redes sociais distribuídas. Em uma proposta de resolução – que não foi objeto de apreciação pela plenária final do Congresso – propus sobre isso treze pontos como conclusões. Para ler clique aqui.

(6) Cf. UGARTE, David (2007). O poder das redes. Porto Alegre: CMDC/ediPUCRS, 2008.

Este texto foi originalmente escrito em 11/09/08 e enviado para mais de 12 mil destinatários cadastrados nas 'Cartas Rede Social', ex-‘Carta Capital Social’ (e antiga ‘Carta DLIS’): uma comunicação pessoal de Augusto de Franco enviada quinzenalmente, desde 2001, para milhares de agentes de desenvolvimento e outras pessoas interessadas no assunto, do Brasil e de alguns países de língua portuguesa e espanhola. Outras partes, acrescentadas depois, foram retiradas de um texto de 18/10/08, intitulado As 7 Alfabetizações e republicado com modificações em 25/11/08 no blog da Escola-de-Redes no post intitulado Um novo projeto.

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Luis Fernando Guggenberger Comentário de Luis Fernando Guggenberger em 11 março 2009 às 18:30
legal André vamos incentivar a Rede a ver tb...
Luis Fernando Guggenberger Comentário de Luis Fernando Guggenberger em 10 março 2009 às 12:33
Reinaldo, que tal você postar o vídeo que está no youtube aqui na Rede para compartilhar com os demais membros?? abraços.
Reinaldo Pamponet Filho Comentário de Reinaldo Pamponet Filho em 10 março 2009 às 11:23
Augusto,

Muito feliz a sua abordagem. Compartilho com a rede a forma carinhosa que chamamos o autodidatismo na Eletrocooperativa - Sevirologia - fazer o melhor que vc pode com o que vc tem. Reforçamos também a importância de trabalharmos o entendimento da subjetividade - por meio da construção do que chamamos de pós-conceitos. Fazemos isso numa construção de valores compatilhados.
Essa experiência abaixo resume um processo semanal que fazemos de criação de linguagem coletiva.
Nessa caso especificamente estamos discutindo Coragem e Coletividade.

http://www.youtube.com/watch?v=MGw9m_I3YLMabraços,
Le. Hoehne Comentário de Le. Hoehne em 3 março 2009 às 13:43
Não sei se isso é um dado estatísticamente comprovado, mas também não sei se a estatística é necessária, mas acho interessante de pensar que quando um tipo de conhecimento é marginalizado pela organização social padrão, como o conhecimento artístico, por exemplo, o autodidatismo se dá de maneira mais corrente. É comum achar um exímio violonista por ter feito do violão um hobbie e não uma profissão, ou seja, não para ele o violão uma técnica de aprendizado formalizado com o fim da profissionalização, foi simplesmente uma identificação de prazer, de satisfação pessoal. Não que seja regra, porém me parece que existem brechas em que o autodidatismo se torna espontâneo e meu achismo aqui é que assim que ele deve acontecer. Fico pensando que o autodidatismo não está ileso frente a formatação acadêmica e institucional. O "sistema" (este sujeito indeterminado) assimila facilmente toda e qualquer coisa, inclusive as que lhe parecem contrárias. Penso na minha ação diária de educador social por meio da arte que devo abrir uma fenda no tempo espaço cotidiano para que a descoberta do conhecimento seja espontânea e o autodidatismo apareça como força de vontade de busca, de pesquisa, de mergulho naquilo que lhe toca.

Este seria o mundo perfeito. Ao mesmo tempo tenho que lidar o tempo todo com aspectos formais da organização social que não transparecem para o adolescente do qual lido diariamente. Não quero moldar ninguém, mas também não posso deixar de abrir o caminho das pedras. É um dilema que enfrento diariamente.

Muito bom o texto. Me fez pensar em muitas coisas. Vou buscar os textos de Ivan Illich.

Abraço!
CARLOS ELI RIBEIRO Comentário de CARLOS ELI RIBEIRO em 1 março 2009 às 23:16
Tenho a mesma percepção e cuidado para não fazermos o mesmo, portanto vejo um ponto importante para reflexão que é a necessidade constante ou não da certificação do saber e a quem e como atribuir estas competências?
Jane Patricia Haddad Comentário de Jane Patricia Haddad em 1 março 2009 às 11:42
Concordo plenamente com seus comentários é preciso Viver em um lugar que seja possível sair da fila. Interrogar as Práticas educativas e a quem elas se destinam.
Como Diz: José Pacheco - "incomodar os acomodados".
Como diz o Filósofo Emílio Lledó:" Ensinar é uma forma de ganahr a vida, mas é sobretudo uma forma de ganhar a vida dos outros", nõ é possível ganhar ou transformar a vida dos outros, metendo-lhe a cabeças em tantas informações sem significado.
Um abraç,
Jane Patrícia Haddad - BH/MG
oscar cruz Comentário de oscar cruz em 3 fevereiro 2009 às 21:11
La libertad en el pensamiento es basico para ser autodidacta, de como nos llegaran a traves de la red los objetos de aprendizaje creo que es lo basico para un buen desarrollo paralelo a la enseñanza de cualquier grado escolar, de aqui la importancia que par un buen desempeño deveran de contar con lo basico en el manejo de las herramientas que propones y estando en el tercer mundo y bajo el dominio de la educación tradicional es importante que la sociedad se concientice de que la educación en la red es una necesidad la cual debe de tener contenidos apropiados para emerger como la alternativa de millones de personas analfabetas en este contexto.
Luis Fernando Guggenberger Comentário de Luis Fernando Guggenberger em 7 janeiro 2009 às 8:51
Augusto, o Fernando Poyares escreveu um post no Blog que reflete justamente o quanto as pessoas ainda não pararam para pensar sobre "o fim dos colecionadores de diplomas"...
Augusto de Franco Comentário de Augusto de Franco em 25 dezembro 2008 às 12:26
Sobre As 7 Alfabetizações:

1) a alfabetização propriamente dita, na língua natal (ler e escrever e interpretar o que leu: no caso, em português); e as outras seis “alfabetizações”:

2) em uma segunda língua da globalização (pelo menos ler, em inglês ou espanhol);

3) matemática (dominar as operações matemáticas elementares e aplicar esses conhecimentos básicos na vida cotidiana);

4) lógica (aprender a argumentar e identificar erros lógicos em argumentos simples);

5) digital (navegar e publicar na Internet e operar as ferramentas digitais de inserção, articulação e animação de redes e blogosferas);

6) em sustentabilidade (incluindo alfabetização ecológica e alfabetização para o empreendedorismo – a pedagogia empreendedora – e para o desenvolvimento humano e social sustentável local ou comunitário); e

7) democrática (para a vida comunitária e para as formas de relacionamento que ensejam a regulação social emergente; i. e., as redes sociais distribuídas).

O objetivo são dois:

i - aprender a aprender (para seguir andando com as próprias pernas) e

ii - aprender a conviver (com o meio natural e com o meio social).

O desafio é elaborar e testar metodologias compatíveis com processos de inteligência coletiva (“Learn from your neighbours”; “I store my knowledge in my friends”), baseadas na idéia de Cidade Educadora (reconceitualizada como cidade-rede de comunidades que aprendem) e aproveitando experiências voltadas ao estímulo ao autodidatismo, como o método Kumon (expandido, porém, com novos conteúdos e adaptado às novas formas de interação educativa extra-escolares, como o homeschooling, o unschooling e, sobretudo, communityschooling e o conectivismo como nova teoria da aprendizagem (daí as redes sociais, que constituem o padrão de organização das novas comunidades de aprendizagem capazes de disseminar as 7 alfabetizações).

Sobre

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Criado por Augusto de Franco 15 Out 2009 at 7:34. Atualizado pela última vez por Augusto de Franco 15 Out.

Games, Learning & Society Conference - GLS 5.0

Criado por Luis Fernando Guggenberger 2 Fev 2009 at 12:02. Atualizado pela última vez por Luis Fernando Guggenberger 2 Fev.

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